A região do Bosque e Jardim da Saúde era um loteamento isolado, originário de duas glebas com ruas de terra batida com poucos moradores, quando os imigrantes árabes da família Lutfi chegaram para morar e trabalhar por lá, no final da década de 1930. Alguns anos depois, a jovem Fuzia Lutfi, mãe do Samir, conheceu Nakhle Khoury, um moço alto e forte, recém vindo do Oriente Médio. Foi amor à primeira vista e se casaram após meses de namoro. Juntos, montaram um comércio, a "Casa Samir", vendendo tecidos e armarinhos no ponto final do bondinho da R. Tiquatira, local onde enfrentaram muitas dificuldades de adaptação e de acesso, principalmente quando chovia, mas não desistiram e ampliaram suas atividades, construindo a primeira loja oficial do Jardim da Saúde, instalada na Av. Cursino através de liminar, pois a prefeitura não permitia abertura de lojas por alí. Hoje, no bairro, além da Casa Samir, possuem a Brisa Modas e a Maloula, que é o nome da cidade síria dos Khoury, onde se fala o Aramaico, o mesmo idioma de Cristo.
Samir, Ângela, Samia, Luzia e Samira, são os 5 filhos deste casal. Todos nasceram, foram criados e mantém seus filhos neste bairro.
Assim, em 22 de Junho de 1954, tem início a linda história da vida de Samir Nakhle Khoury. "Não consigo sair da região por ser um caso de amor antigo", diz ele, continuando a tradição comercial da família, mesmo tendo percorrido altos caminhos universitários. Formado em Psicologia Clínica e Administração de Empresas, divide seu tempo entre as várias atividades empresariais, junto com a de professor universitário e de dirigente nas dezenas de associações em que atua, como Rotary International, Maçonaria, Greenpeace, Médicos Sem Fronteiras, Sociedade Crescer, Grupo de Apoio Humanitário, entre outras.
Samir já recebeu diversas homenagens de reconhecimento por seu trabalho benemérito, tanto no Brasil quanto no Exterior. Em São Paulo coordena grupos de profissionais que prestam serviços voluntários, como palestras de prevenção ao uso de drogas, cursos gratuitos de alfabetização de adultos, de informática, de cidadania, entre outras atividades comunitárias no Jardim São Luiz, Jardim Angela, Grajaú, Parelheiros, etc. Atua também junto a hospitais de várias cidades e trabalha em clínicas de recuperação de dependentes químicos.
Mesmo diante de tanto envolvimento externo, a região do Bosque e Jardim da Saúde é o ponto central da vida de Samir. Criou em sua casa o Rotary de São Paulo - Saúde, tendo exercido todos os cargos executivos até chegar ao posto de Governador do Distrito 4420. Em sua gestão como Venerável, trouxe para o bairro a sede uma das maiores lojas maçônicas da cidade, a Loja 21 de Abril. Ajudou na formação de uma regional representativa da Associação Comercial de São Paulo, onde hoje é Conselheiro Consultivo. Fundou e presidiu a Associação dos Lojistas do Jardim da Saúde (ALOJASA), é Presidente da Comissão de Festejos do bairro (COFEJASA), preside a Comissão de Ética do Conseg e também atua em outras importantes associações locais.
"Nesta região está minha vida, onde cresci, estudei, casei, tive meus filhos e onde provavelmente morrerei", diz sorrindo e relembrando a infância. Freqüentou o EMEI Montese "uma pré-escola com vasta vegetação, grandes piscinas e play-ground". Fez o primário também no bairro, EEPG Raul Fonseca, foi ao Liceu Pasteur, depois passando para o melhor colégio local, o Conde José Vicente de Azevedo. "Naquela época, o ensino público era ótimo e ficávamos orgulhosos ao falar sobre a escola", afirma ele.
Samir chegou a pular os altos muros do recém construído colégio OEMAR para roubar frutas, entre outras peripécias de um garoto feliz. Brincou como um moleque-de-rua nas piscinas naturais dos vales da região, pescou na antiga R. Água Funda, hoje Av. Abraão de Morais. Usou estilingue em meio às matas do Tanque da Pólvora "lá ainda existe uma bica d'água potável, bem perto da Av. Tancredo Neves e quase ninguém sabe".
A história deste ícone tem seu ponto alto neste parágrafo: No bairro conheceu, ainda criança, sua esposa Maria Carolina, cuja família também é de pioneiros do Jardim da Saúde. O casamento gerou um lindo casal de filhos, Rafael e Aline. É bem visível o amor que Samir nutre por estes seus três grandes motivos de viver.
A amizade entre Samir e a ACES - Associação Cultural e Esportiva Saúde -
já tem mais de 20 anos, hoje refletida no sucesso de eventos como o Agita Saúde e a gestão do Clube da Comunidade Castúlio do Amaral (CDC), do qual ele é o 1° Conselheiro. Por outro lado, este envolvimento não se deve apenas às parcerias, mas também à empatia que ele possui junto à comunidade nipônica. Justifica-se:
Chegando ao Brasil, em 1929, a família de Fuzia Lutfi fixou-se na região do Alto Cafezal Paulista, onde ajudou a formar a cidade de Marília, trabalhando com os imigrantes japoneses do Kassato Maru. Juntos desenvolveram a cultura do bicho-da-seda, produzindo sucesso para todos os envolvidos. Parte dos Lutfi migrou para a Capital, mas sempre voltavam ao interior para manter a união familiar. "Eu gostava de ir lá. A maior parte dos meus amigos era nissei, tanto em Marília quanto em Garça e região. Muitos voltavam conosco para brincar aqui na Saúde", lembra Samir. Para ele, atuar com os orientais é algo natural e uma maneira de retribuir o apoio dado pela colônia a seus pais, desde a fundação de sua primeira loja. Vale lembrar que agora esta região paulistana é reconhecida como detentora da maior quantidade de descendentes nipônicos no exterior do Japão.
"A participação da família nikkey é fundamental para o sucesso de qualquer atividade desenvolvida, neste ou em qualquer outro bairro. Assim, meu compromisso com esta colônia e também com a região é contribuir para o desenvolvimento em geral, preservando nossa história, beleza e espírito, que sem dúvida são o nosso maior tesouro", finaliza Samir.
(texto extraído da matéria de Mariuza Rodrigues para a Revista da ACES, ano II nº6, pág.10)