Casarão
da Atriz Maria José de Carvalho
Continua indefinido o futuro do antigo
casarão da Rua Silva Bueno, 1.533. Tanto a casa como objetos
valiosos como pinturas à óleo de Darcy Penteado, Celeste
Bentley e DiCavalcanti que foram doados por Maria José à Secretaria
da Cultura.
Desde a morte da atriz, o prédio está fechado. Em quando grande
parte do acervo é rigorosamente catalogada e recuperada , o sobrado
enfrenta sérios problemas como infiltrações, cupins e
traças. Além disso, a fachada está parcialmente pichada.
Segundo a museóloga, Beatriz Augusta Correia da Cruz, a casa está bastante
danificada. “Outro problema são os vândalos que picham a
fachada do prédio, que já foi pintada mais de duas vezes. Antes
do Estado tomar conhecimento sobre a doação, o local havia sido
invadido por pessoas estranhas. Para evitar novas invasões contratamos
um vigia até o início das obras de restauro”, salienta.
Desde 1.997, o acervo com mais de 3.000 livros, obras de artes, traduções
e documentos pessoais está sendo catalogado. “Obras mais importantes
como telas de DiCavalcanti e livros teatrais foram removidos e encaminhados
ao Arquivo do Estado. Esperamos concluir o processo de documentação
do inventário e trabalho de levantamento das obras dentro de dois meses”,
comenta Beatriz.
Ela afirma também que a Secretaria da Cultura pretende reformar o Casarão
e transformar o lugar em pólo cultural. “O Ipiranga é uma
região carente de espaços culturais. Por isso, contamos com o
apoio dos moradores e autoridades do bairro para colaborar com a restauração
do edifício.”
Para o cineasta, Osmar Fernandes Aly, Maria José sempre se preocupou
com preservação da arquitetura paulista. “Ela dizia que
sonhava em transformar o Casarão em um centro cultural. A casa era um
tesouro repleto de antiguidades e raridades, como a biblioteca com livros importantes
sobre teatro”, declara.
Ele comenta que o Casarão, as velhas mobílias e o jardim interno
retratavam a personalidade solitária e agressiva da atriz. “É com
muita tristeza saber que parte do valioso patrimônio está abandonado.
Além disso grande parte da população desconhece sua história.
Por isso, as autoridades devem resgatar a memória da atriz e recuperar
o edifício para beneficiar a comunidade paulistana”, conclui.
Um dos moradores do bairro preocupados com o destino do Casarão na Rua
Silva Bueno é o presidente da Associação Brasileira de
Colecionadores de Filmes em 16mm, Archimedes Lombardi. Ele conta que elaborou
um projeto que pretende apresentar à Secretaria de Cultura. “Gostaríamos
que o local abrigasse também o Cine Clube Ipiranga. Temos um público
cativo que freqüenta semanalmente nossas sessões. Apenas não
temos um espaço próprio para apresentar mais filmes durante a
semana”, comenta.
A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo informa que os interessados
em patrocinar o projeto de revitalização do Casarão podem
entrar em contato com a Secretaria.
Quem quiser obter mais informações sobre a atriz basta acessar
o link “Musa Renegada” no site www.opera-prima.com
Quem passa pela Rua Silva Bueno não imagina que no velho Casarão
localizado no número 1.533 viveu a atriz Maria José de Carvalho,
atriz, cantora, diretora teatral. A atriz morta em 1.995, doou seu patrimônio à Secretaria
da Cultura do Estado de São Paulo. O sonho da artista era criar um espaço
cultural destinado aos moradores da região.
Ela foi a primeira artista a recitar poesia concreta no Brasil, no Teatro Brasileiro
de Comédia (TBC), pelo Movimento Ars Nova, em 1.953. Destacou-se também
como tradutora de peças teatrais e de clássicos de autores como
Garcia Lorca, Pablo Neruda, Homero, Cervantes, Pirandello e Shakespeare.
Formada em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da Universidade de São Paulo (USP), Maria José iniciou
os estudos musicais aos seis anos. Aprendeu violino, canto e dança.
Ainda como estudante, participou do movimento de renovação do
teatro paulista como integrante do grupo universitário de teatro, dirigido
por Décio de Almeida, na década de 40.
Nos anos de 60, tornou pianista do Conservatório Dramático e
Musical de São Paulo e lecionou História das Artes e da Música
na Escola de Arte Dramática e na Escola de Comunicação
e Artes da Universidade de São Paulo.
Como poetisa, a artista escreveu os livros: Romance de Lampião, Mar
do Sul e Os Celebrantes. Em 1.991, Maria José se apresentou no salão
nobre do ex-Banco Banespa, Viaduto do Chá, onde interpretou o texto
integral da pela “Ode Marítima”, de Fernando Pessoa.
Maria José também foi professora de dicção e ministrou
aulas práticas de teatro em sua residência no Sacoman. Desenvolveu
método próprio de ensino em técnica vocal e estilo de
interpretação teatral, que aplicou durante 23 anos na Escola
de Arte Dramática.
O cineasta Omar Fernandes Aly, que produziu o documentário sobre a vida
da artista: “Tema e Variação Primeira”, conta que
Maria José era uma pessoa fascinante e temperamental. “Ela tinha
um gênio muito forte. Ditava as ordens. Tivemos várias divergências
durante as filmagens da película. Vários amigos que participaram
da produção desistiram no caminho. Mas, no final, deu tudo certo.
Além disso, ela ficou feliz com o resultado do filme porque mostrava
a vida solitária de uma mulher que marcou época”, afirma.
Aly conta que Maria José ganhou notoriedade da crítica e dos
colegas de trabalho quando iniciou o curso de dicção, impostação
de voz, expressão verbal e postura. Personalidades do meio artístico
e político freqüentavam seus cursos. Entre lês, destaque
para o Senador Eduardo Suplicy, ex-governador Franco Montoro, presidente Luiz
Inácio Lula da Silva e os atores Francisco Cuoco, Araci Balabarian,
Fernanda Montenegro, Glória Menezes, Mauro Mendonça, Raul Cortez
e Ney Latorraca.
(texto extraído do Jornal Gazeta
do Ipiranga de 30 de agosto de 2.002 – página A2, escrito
pelo jornalista André Dusicska). |